Disciplina: Língua Portuguesa 0 Curtidas

“e disse comigo: — Eia, passemos em revista as procuras - UNIFESP 2022

Atualizado em 25/09/2024

Para responder a questão, leia o trecho inicial de uma crônica de Machado de Assis, publicada originalmente em 17.07.1892.

Um dia desta semana, farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, farto de ver como se descompõem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais, farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação, peguei de uma página de anúncios, e disse comigo:
— Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas de leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses crônicas...
E o meu espírito, estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que caem do alto, mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou à tona, trazia entre os dedos esta pérola:
“Uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia-idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as iniciais M.R...., anunciando, a fim de ser procurada essa carta.”
Gentil viúva, eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres. Ai de quem está só! dizem as sagradas letras, mas não foi a religião que te inspirou esse anúncio. Nem motivo teológico, nem metafísico. Positivo também não, porque o positivismo é infenso às segundas núpcias. Que foi então, senão a triste, longa e aborrecida experiência? Não queres amar; estás cansada de viver só.
E a cláusula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a cláusula da meia-idade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a cor purpúrea e o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma tábua de salvação, pois que exiges que também possua. E há de ser instruído, para encher com as coisas do espírito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos presas) a tomada de Constantinopla.
Viúva dos meus pecados, quem és tu que sabes tanto? O teu anúncio lembra a carta de certo capitão da guarda de Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Sêneca, perguntando-lhe como se havia de curar do tédio que sentia, e explicava-se por figura: “Não é a tempestade que me aflige, é o enjoo do mar”.
Viúva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é um remédio contra o enjoo. Vês que a travessia ainda é longa — porque a tua idade está entre trinta e dois e trinta e oito anos —, o mar é agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel e indefinível. Não te contentas com o remédio de Sêneca, que era justamente a solidão, “a vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego”. Tu já provaste esse preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que uma companhia.

(Machado de Assis. Crônicas escolhidas, 2013.)

“e disse comigo:
— Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas de leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses crônicas...” (1.o e 2.o parágrafos)

Nesse trecho, observa-se um diálogo interior do cronista. Se a fala do cronista fosse dirigida a um outro personagem, o termo sublinhado assumiria, na transposição do trecho para o discurso indireto, a forma:

  1. passe.

  2. passasse.

  3. passaria.

  4. passou.

  5. passara.


Solução

Alternativa Correta: B) passasse.

A resposta correta é a alternativa B) "passasse" porque, ao transpor o diálogo interior do cronista para o discurso indireto, o verbo precisa ser ajustado para refletir a mudança de tempo e modo. No trecho original, o cronista usa o presente do subjuntivo "passemos", que é apropriado para uma fala que expressa um desejo ou uma proposta em um contexto imediato. Quando essa fala é reportada a outro personagem, a forma verbal deve ser alterada para o pretérito imperfeito do subjuntivo, resultando em "passasse".

Essa mudança de tempo verbal é uma característica da gramática portuguesa que permite que o discurso indireto mantenha a concordância e a coerência em relação ao tempo em que a fala é realizada. O pretérito imperfeito do subjuntivo é utilizado aqui para expressar uma ação hipotética ou desejada que não está mais no presente, mas sim em um contexto anterior ao momento da fala.

Portanto, ao afirmar "Ele disse que passasse em revista as procuras e ofertas", a construção do verbo "passasse" corretamente reflete a intenção original do cronista, que era de sugerir uma ação a ser considerada em um contexto de revisão ou reflexão, agora expressa de maneira indireta e no tempo adequado. Essa estrutura gramatical é fundamental para a clareza e a precisão na comunicação de ideias em português.

Institução: UNIFESP

Ano da Prova: 2022

Assuntos: Interpretação Textual

Vídeo Sugerido: YouTube

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